MÁQUINAS DE LER LIVROS
Enviado em 11 de Novembro de 2009
Publicado por J. Ferrari | Enviar por e-mail
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Dentro de no máximo dez anos, vai valer mais um Kindle “X2PO” na mão do que alguns milhares de livros em estantes.
Mesmo sendo pouco interessado em livros, leitor é sempre leitor!

Todo lemos alguma coisa, desde Bíblia até bula de remédio. Eu gosto muito de ler artigos, mensagens, blogs, mas principalmente gosto muito de ler livros. Trabalho com a indústria gráfica desde jovem e o “cheiro” de papel e de tinta num livro novo e o de mofo nos livros velhos, ainda me encanta. Acho até que num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver.
É principalmente por estes motivos que tenho acompanhado de perto a evolução dos meios virtuais e digitais de produção e leitura de livros, jornais, revistas.
Há alguns dias, vi duas histórias desenhadas na revista “The New Yorker” e que são bem sintomáticas.
A primeira é uma ótima anedota e se passa no período paleolítico.
Dentro de uma caverna, estão quatro personagens. O principal é um homem, enchendo as paredes com pictogramas semelhantes às escritas primitivas e duas mulheres, sendo que uma delas está amamentando um bebê, sentadas diante de uma fogueira. E a mãe diz com uma cara apreensiva: “Sempre que ele termina um romance, nós temos que mudar”. Pelos desenhos, o romance deve estar no último capítulo, pois as paredes estão todas pictografadas.
A segunda charge, mostra a entrada de um prédio com uma livraria do lado esquerdo, e o dono está abrindo a porta. Do outro lado uma jovem está recebendo do carteiro um pacote com um rótulo escrito - LIVROS! O rosto da mulher demonstra um forte constrangimento enquanto o dono da loja, com a chave na fechadura, olha para ela.
Bem representativo do nosso tempo, não é? Significa que a mulher, que tem uma livraria real ao lado da sua casa, prefere comprar seus livros numa livraria virtual.
A charge não explica nada, somente mostra o choque violento, e muito atual, entre o real e o virtual no mundo dos livros, envolvendo leitores, livreiros, editores, e principalmente o futuro.
Uma outra experiência, eu mesmo vivenciei. Foi no último sábado na Livraria Saraiva. Eu procurava um livro caminhando por entre as estantes quando num sofá, que a loja oferece para os leitores, vi uma jovem de vinte e poucos anos, totalmente absorvida, “lendo um livro” com um Kindle nas mãos. Fiquei por perto observando e a moça ficou ali todo o tempo envolvida com sua leitura. Me perguntei: “Ela está lendo um Kindle ou um livro?”
Sentei numa das poltronas pensando na revolução da imprensa que aconteceu a mais de 500 anos. Lembrei de Gutemberg, dos tipos móveis e da semelhança entre o que aconteceu lá atrás com o que está acontecendo hoje. O Kindle e seus similares, são a “nova revolução” da imprensa. Estas “máquinas de ler”, com todas suas tecnologias embutidas, se “fingem” muito bem de livros.
De repente, a jovem olhou seu relógio, guardou sua “máquina de leitura” na bolsa e foi embora.
Dando mais um passeio pela loja, encontrei mais três pessoas lendo tranquilamente nas suas “máquinas de leitura”.
Voltei pensando na tremenda economia de papel, tinta e material de impressão, além de energia e transporte. Quantos milhões ou bilhões de árvores são abatidas todo ano para abastecer a indústria livreira?
Os editores podem se agitar, os leitores podem discutir, mas não há como disfarçar nossa estranheza diante desta novidade, que não é tão novidade assim, e a insegurança quanto ao futuro do produto “livro”. Tudo isto é irreversível, e assim como aconteceu nos primórdios da informática, o livro virtual veio para ficar. Disto não podemos duvidar mais.
Assim como a mãe na história dos pictogramas se preocupava em mudar de caverna. Assim como a vizinha da livraria ficou constrangida quando olhou para o dono da livraria, eu confesso que fico preocupado e paro aqui para pensar um pouco mais sobre os impactos que estas mudanças vão trazer para a minha profissão, para o meu trabalho de consultoria e para a indústria gráfica editorial.
Dentro de no máximo dez anos, vai valer mais um Kindle “X2PO” na mão do que alguns milhares de livros em estantes.
As coisas mudam mas o SER HUMANO continuará o mesmo.
Temos que RePensar constantemente tudo!
Grande abraço.
Ferrari
