Imagine-se um HOMO SAPIENS naquele mundo sombrio…
Enviado em 22 de Abril de 2008
Publicado por J. Ferrari | Enviar por e-mail
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Texto do livro: Nascimento da Era Caórdica - Autor: Dee Hock
Imagine-se um HOMO SAPIENS naquele mundo sombrio que precedeu as corporações, as instituições, as tribos e talvez até mesmo a família. Um animal pensante num mundo fervilhante de carnívoros ricos em dentes e garras, loucos para encher a barriga com carne tenra. A experiência logo o ensinaria, se o bom senso não conseguisse que a incapacidade de diferenciar entre a natureza da cobra e do coelho, do leão e da gazela, resultava numa vida curta e desagradável. Para quem não compreendia a NATUREZA DAS BESTAS, de pouco adiantava conhecer os mecanismos de sua anatomia.
No mundo em que vivemos hoje, encher a barriga com os dentes e as garras é algo que foi muito reduzido pelo uso das instituições - família, cidade, município, estado, nação, igreja, corporação, escola, associação. São milhões de instituições, de todos os tamanhos e descrições, aceitas com a naturalidade com que aceitamos as estações. Mas as instituições podem nos aviltar, prejudicar e destruir de maneira infalível e caprichosa, como um tigre de dentes de sabre. E o fazem com instrumentos tecnológicos, psicológicos e econômicos infinitamente mais destrutivos do que os dentes e as garras.
As instituições não são uma lei da natureza, nem saíram já maduras da cabeça de Zeus. Na longa curva da História elas são com todo seu tamanho e complexidade, recém nascidas, primitivas, aberrantes e geralmente incivilizadas. As pessoas não são criaturas das instituições, as instituições são criações das pessoas, mas parecem cada vez mais fora de controle, como o giro da Terra e o calor do Sol. Vivemos remendando sua anatomia e suportando seus abusos, mas será que compreendemos A NATUREZA INTRÍNSECA DA BESTA INSTITUCIONAL?Não muito bem. O problema vem de um hábito universal: ver as instituições como realidades físicas palpáveis, como um prédio ou uma máquina.
Então, quando alguém começava a falar ou a agir como se uma empresa tivesse tal realidade, eu lhe garantia que ela é uma ficção, que não existe. A maioria contra-argumentava: é claro que existe. Eu testava essa convicção com um exercício simples, que você, leitor, pode fazer. Fixe na mente a empresa em que trabalha, ou qualquer organização de que faz parte. Não suas manifestações físicas, como o nome, os funcionários, mas a própria empresa. Ponha todos os
outros pensamentos de lado e concentre-se nessa organização que conhece tão bem.
Com certeza você já a viu. De que cor é? Não? Bom, então deve tê-la cheirado de vez em quando. Descreva esse cheiro. Não? Então deve ter sentido o seu gosto. É doce ou amarga, picante ou suave? Você não sabe? Bom, deve tê-la tocado muitas vezes. É quente ou fria, dura ou mole? Não? Então sem dúvida a ouviu. Faça o seu som. Não? Dá para perceber a empresa em que trabalha, ou qualquer outra organização, seja ela política, social ou comercial, por meio de algum dos sentidos? É claro que não. Se não dá para sentir uma
organização com nenhum dos sentidos, será que ela tem alguma realidade? Talvez seja uma ficção. Talvez nem exista. Mas você não vai aceitar essa explicação.
A verdade é que uma empresa comercial, como, aliás, qualquer organização, não passa de uma idéia. Todas as instituições não passam de um constructo mental a que somos levados ao buscar um propósito comum; uma personificação conceitual de uma poderosa idéia muito antiga chamada COMUNIDADE. Uma organização não é nem mais nem menos do que a força atuante da mente, do coração e do espírito das pessoas, sem a qual tudo não passa de matéria inerte, mineral, química ou vegetal, decaindo sempre para um estado estável, segundo a lei da entropia.
Organizações saudáveis é um conceito mental de relacionamento que atrai as pessoas por causa da esperança, da visão, do significado, dos valores - e da liberdade de buscá-los cooperativamente. As organizações saudáveis induzem o comportamento. O comportamento induzido é inerentemente construtivo.
As organizações doentias são também um conceito mental de relacionamento, mas um conceito imposto às pessoas por acidente de nascimento, pela necessidade ou pela força. As organizações doentias forçam o comportamento. O comportamento forçado é inerentemente destrutivo.
Como a força e a realidade de qualquer organização reside no senso de comunidade das pessoas que foram atraídas para ela, seus sucessos têm muito mais relação com a clareza do propósito compartilhado, com princípios comuns e com a força da crença nesse propósito e nesses princípios do que com dinheiro, bens materiais ou práticas de administração, por mais importante que sejam. Quando uma organização perde sua visão, seus princípios, seu senso de comunidade, seu significado e seus valores, já está em processo
de decadência e dissolução, mesmo que mantenha por algum tempo a aparência externa do sucesso. Os negócios, assim como as nações, raças e tribos se extinguem não quando malogram ou são suprimidos, mas quando perdem o entusiasmo e a esperança em relação ao futuro. Sem um propósito comum profundamente enraizado, que dê significado à sua vida; sem crenças e valores éticos comuns que norteiam a conduta na busca do propósito e nos quais todos possam confiar, as comunidades se desintegram e, progressivamente, as organizações se tornam instrumentos da tirania.
Na medida em que existe clareza de propósito e princípios comuns e se acredita neles, o comportamento construtivo e harmonioso pode ser induzido. Na medida em que não existe, o comportamento é inevitavelmente forçado. Não é complicado. A alternativa à crença comum no propósito e nos princípios é a tirania. E a tirania, seja ela pequena ou grande, comercial, política ou social, é inevitavelmente destrutiva.
PESSOAS PRIVADAS DE AUTO-ORGANIZAÇÃO E DE AUTOGOVERNANÇA SÃO INERENTEMENTE INGOVERNÁVEIS.

O autor, fundador e CEO Emérito da VISA, transmite nesta obra o seu conceito de um sistema global de troca de valor e de organização, que combina o caos e a ordem. Suas idéias fizeram dele, desde 1991, um dos trinta laureados vivos do Business Hall of Fame e, em 1992, foi considerado uma das oito pessoas que mais mudaram a nossa maneira de viver no último quarto de século. Uma obra imperdível para quem quer conhecer novos caminhos para as organizações.